A Estação Primeira de Mangueira realiza a final de samba enredo, neste, sábado, 08 de outubro, a partir das 22h, quando será escolhido o hino que representará o enredo de 2023 “As Áfricas que a Bahia Canta”, dos carnavalescos Guilherme Estevão e Annik Salmon.
O tema apresentará as construções das visões de África na Bahia a partir de sua musicalidade e instituições carnavalescas negras, destacando o protagonismo feminino nesse processo e as lutas contra intolerância, racismo e pelo fortalecimento da identidade afrobrasileira.
A escola verde e rosa, detentora de 20 títulos do carnaval carioca, terá três sambas na disputa, dos compositores Gilson Bernini e cia; Lequinho e Cia e Thiago Meiners e Cia, cada um se apresentando por 40 minutos com o apoio da bateria da Mangueira.
Em um show montado especialmente para este dia, a escola celebrará a música baiana e seus ritmos coordenado pelo diretor artístico da escola, Fábio Batista.
Desde o pré-carnaval de 2020 a escola não recebe os apaixonados pelo carnaval para escolher o samba na quadra, a última disputa ocorreu através de lives por conta da pandemia.
FICHA TÉCNICA MANGUEIRA 2023
Guanayra Firmino: Presidenta
Moacyr Barreto: Vice-presidente
Guilherme Estevão e Annik Salmon: Carnavalescos
Matheus Olivério e Cintya Santos: Mestre-sala e Porta-bandeira
Taranta Neto e Rodrigo Explosão: Mestres de Bateria
Marquinhos Art Samba e Dowglas Diniz:Intérpretes
Cláudia Mota: Coreógrafa da Comissão de Frente
Evelyn Bastos: Rainha de Bateria
Helton Dias: Diretor de Harmonia
Amauri Wanzeler:Diretor de Carnaval
AS ÁFRICAS QUE A BAHIA CANTA”
Sinopse
Quando o verde se derrama em rosa pela avenida, o céu se agita, o morro mostra seu samba como Ilú a repicar. Os ventos se assanham no girar da mãe, conduzindo os filhos de Mangueira a desfilar. Por nós, Oyá! Por nós, Oyá!
Ela que veio de longe. Ela que veio do vento, guerreando contra todo sofrimento, de quem um dia foi obrigado a traçar um novo destino além-mar. Bantu, Haussá, Gegê, Iorubá…tantas Áfricas que na Bahia vieram a aportar.
Na alma, carregaram a bagagem de seus ancestrais; no corpo estamparam a riqueza de seus rituais. No ecoar de suas vozes, fizeram-se mais fortes, nos “batuques” e seus toques adornavam outros nortes. Na terra de todos os santos, tantas Áfricas se recriaram pelo encanto de seus cortejos, pelas histórias de seus cantos. Como bandeira de luta, como conquista das ruas, por liberdade em ser, por respeito às suas. Tudo isso através dos dias onde a Bahia é mais Bahia e ser preto é sinônimo de alegria.
Hoje, mais uma vez, iaiá mandou ir à Bahia, em tempos em que a Lei Áurea tão sonhada não havia sido assinada, mesmo que a liberdade, posteriormente, ainda fosse ilusão. Negros iam as ruas em dia de folia, desafiando toda perseguição, entoando cantares nativos, contando a saga daqueles que, infelizmente, sucumbiram pela escravidão.
Faziam festa para a sua preta rainha em forma de cucumbis, trazendo, a frente, um cortejo de rotins, afugentando todo mal que pudesse estar por ali. O arauto negro anunciava a chegada da procissão, cavalarias faziam guarda e “barbeiros” davam o ritmo com xequerês, caxambus e a marcação. Fogos dos bengalas explodiam no céu, quando, de repente, o filho da rainha morria em meio a exibição. Ela ordena ao um feiticeiro que seu filho reviva. Na sua dança mágica, o menino ganha vida, ela lhe entrega tesouros em missangas para que o cortejo prossiga, o sagrado demonstra seu poder e a corte se unifica.
O “charme” da liberdade no papel, posteriormente, se garantia, porém a negritude estava longe de alcançar direitos e cidadania. Pelas ruas de Salvador se viam ex-cativos marginalizados, perseguidos até pela forma em que se vestiam. Era proibido “ser” africano na Bahia, mas, em dias de folia, a fantasia era ousada, com muita sabedoria se esquivavam da chibata da polícia que insistia em esquecer em que tempo estava. Seguindo a tradição preta de cortejos, se organizaram em Clubes Negros, a disputar as ruas com a burguesia, em forma de arte, protestavam contra os açoites e a serventia. As “Embaixadas” africanas impressionavam pelo luxo e incomodavam até que um dia foram vetadas…
Mesmo perseguidos, os préstitos viraram formas de sobrevivência e luta por liberdade. Atraia-se, daquela forma, os olhares da imprensa e da comunidade e, na ótica do opressor, uma ignorante sensação de “civilidade”, ao acharem possível, desta maneira, controlar a força negra da baianidade. Mas nada era mais intenso que a união do gueto, a rua e a fé, andando a pé pela cidade. Do terreiro do Engenho Velho, o céu dos orixás intervia ao unir a arte, a religiosidade e a fantasia, levando os livres toques de ijexá pelas ladeiras e avenidas. Preparava-se o padê para que Exu mensageiro fosse ligeiro abrir os caminhos para passar o Afoxé. Nessa cidade em que todo mundo é d' Oxum, nas ruas rodam candomblés, conduzidos e protegidos pela Yalotim, onde o santo é representado, esculpido pelo talhar do Iroko. A África, desta vez, se recria pelas mãos do sagrado.
A dor que pariu Salvador, pariu seu carnaval e promoveu a explosão de grupos pretos que tomaram conta dessas vias de clave e Sol com alegria, pois ela é a revolução. A realidade dura dos guetos virava letra de canções, incorporando e renovando a herança rítmica das negras procissões. Corpos e corpas se tornaram protesto, estampando seu manifesto no vestir e no dançar. Os blocos afros reconstruíram a identidade de um povo, que passa a ter ainda mais orgulho de sair na folia a cantar, de fazer a terra tremer, pois o vulcão da Bahia é tambor de Ilê Aiyê. É pulsação de Muzenza, de Olodum e Badauê. É o Didá e dança de Malê Debalê. São as mais belas das belas deusas do ébano girando e reinando pela avenida, ao toque da batida que vira sinônimo da própria vida. Se adornam no laço afro que amarra o legado de seus ancestrais, dando cor, energia e vigor aos carnavais. Que bloco é esse, negão?
Salvador se agita no negro toque do agogô, nas quebradas com a pele pintada, nas estampas de faraós, na pipoca do trio, nos tambores do Pelô. Na mistura do Timbalada, dos sambas de roda, reggae e tantos sons que dão o tom à baianidade Nagô. Nas vozes das pérolas negras que conduzem os cortejos sem submissão de raça, sem lágrima, nem dor. O amor do povo que se lava com a força do axé, na fé do Bonfim, nos cantos do candomblé. Axé que canta e amarra em seus fios de conta a importância de ser chão africano. Axé da negrada que passa o astral da avenida todo ano. Axé que mostra que a cor dessa cidade é a mesma de Mangueira, com a força do vento, expressão da liberdade, fazendo o negro respirar felicidade.
Texto: Guilherme Estevão e Annik Salmon
Pesquisa: Guilherme Estevão, Annik Salmon e Mauro Cordeiro.
JUSTIFICATIVA DO ENREDO
“Isso é a confirmação de que a Mangueira
É onde o Rio é mais baiano”
Onde o Rio é mais baiano (Caetano Veloso)
No carnaval de 2023 a Estação Primeira de Mangueira irá apresentar o enredo “As Áfricas que a Bahia canta”. Em seu desfile, a verde e rosa vai abordar a diversidade e a pluralidade de construções, imaginações e recriações de África através dos cortejos negros do carnaval baiano. Destacando a centralidade da musicalidade e o forte protagonismo feminino, a escola irá retratar diferentes organizações afrocarnavalescas. A folia é entendida como um espaço central no processo de construção de uma identidade afro-brasileira e afro-baiana. O desfile se divide em cinco formas históricas de cortejo negro do carnaval baiano: os cucumbis; os clubes uniformizados; os afoxés; os blocos afro; e o axé. Esta divisão tem um recorte temporal que vai da primeira metade do século XIX até hoje.
O horror da escravidão, motor do sistema colonial brasileiro, promoveu a chegada forçada de um contingente expressivo de homens e mulheres originários do continente africano como mão de obra para a produção. Privados de sua liberdade, estes negros e negras de diferentes matrizes culturais lutaram pela preservação de seus sistemas simbólicos, conhecimentos ancestrais, crenças e formas de vida. Além destas permanências, outras formas de ser e crer foram gestadas neste encontro diverso, ressaltando a pluralidade constitutiva da experiência negra no Brasil. Ainda durante a longa e cruel vigência do sistema escravocrata, na primeira metade do século XIX, esta presença negra começa a se fazer notar no carnaval baiano graças aos cucumbis.
Os cucumbis eram uma espécie de folguedo que, através de canto e dança, apresentava diversos rituais celebratórios do Reino do Congo. Trata-se de uma apresentação de corte, um ritual festivo que também comporta elementos dramáticos e tem na figura da Rainha um papel de destaque. Além disso, desafiava à lógica escravocrata ao representar em seu préstito africanos e africanas em posição de destaque e poder, como realeza. Produto da cultura banto, cantavam em sua língua natal acompanhados por xequerês, ganzás, chocalhos, tamborins e agogôs.
Durante a segunda metade do século XIX, houve uma tentativa de reforma e transformação do carnaval por parte das elites. A burguesia contou com o aparato policial e com o engajamento de literatos no combate as formas populares de brincar a festa. É neste contexto que surgem os clubes uniformizados negros. Dialogando com a elite local e se apresentando em forma processional, com alegorias exuberantes e volumosas, agremiações como a Embaixada Africana, os Pândegos de África, Nagôs em Folia, Filhos da África e os Diabos Africanos lutam pelo protagonismo festivo com os clubes uniformizados formados pelos brancos. Reconhecidos pelos seus batuques, estes clubes apresentavam a cada ano em seus enredos-manifestos temas africanos. Valorizando personagens, passagens históricas e elementos culturais, tratava-se de uma imaginação de África potente e exuberante.
Parte considerável dos jornais da época classificava todas as formas de cortejo negro como batuques ou afoxés. Esta maneira generalista incluía em um mesmo balaio diferentes organizações afrocarnavalescas. Embora, na virada do século, já houvesse de fato algumas organizações com este formato, um marco decisivo da presença dos afoxés no carnaval baiano é a fundação do Filhos de Gandhy em 1949. Desde então, multiplicaram-se os afoxés: Badauê, Filhas d'Oxum, Oyá Axogum Sobô, Korin Efan, Ataojá, Ilê Oyá, Monte Negro, Filhas de Ghandy e tantos outros mais. Os trabalhos são abertos com um padê para Exu, na sequência, abrindo o cortejo, o boneco babalotim ou a boneca ialotim, símbolo ritual do grupo. Também conhecidos como candomblés de rua, os afoxés representam o momento em que a tradição dos orixás transborda dos terreiros para encantar toda cidade através do ritmo do Ijexá e com as bênçãos das matriarcas da religião.
Durante a década de 1960 as escolas de samba, os blocos e cordões eram algumas das organizações onde a juventude negra brincava o carnaval. Progressivamente, com o declínio das escolas de samba, esta juventude negra começa a formas novos blocos que teriam na temática indígena o seu mote principal. Embora já houvesse algum transito cultural entre negros e indígenas no carnaval desde, pelo menos, os cucumbis, tratava-se de uma nova categoria carnavalesca: sujeitos negros formavam blocos de índios para curtir a folia como os Caciques do Garcia e o Apaches do Tororó. O fato é que houve forte repressão policial e na década seguinte outra forma festiva surgiria para abalar as estruturas do carnaval baiano.
Os blocos afro são agremiações que produziram, a partir da década de 1970, o que diversos autores classificaram como a “reafrizanização do carnaval baiano”. Estes cortejos construíram expressões estéticas e discursivas de grande relevância para a preservação, a difusão e a valorização da cultura negra. Incorporaram diversos ritmos caribenhos em sua sonoridade, ampliando a diversidade sonora da festa. Também contribuíram para a valorização da beleza negra através de concursos como o realizado pelo Ilê Aiyê que elege uma Deusa do Ébano que será destaque em seu desfile. Além do carnaval, converteram-se em importantes centros educacionais nos bairros onde se situam.
O axé como forma de cortejo é o resultado de diversas colaborações sonoras e de um processo histórico de acúmulos e transformações que terá, na invenção do trio elétrico por Dodô e Osmar, um episódio decisivo. Beneficiando-se de um caldo de cultura que inclui o pagodão, o samba de roda, os afoxés, o frevo, o reggae, a muzenza e outros ritmos musicais, o axé se converte na musicalidade e na forma de cortejo baiano que ganha o Brasil através da centralidade da cultura de matriz afro-brasileira.
O carnaval baiano é um grande palco iluminado onde historicamente a negritude desfilou seus anseios e esperanças enquanto construía e reconstruía sua própria identidade. O carnaval da capital, Salvador, está, desde o ano de 2005, no Livro dos Recordes como o maior carnaval de rua do mundo. A festa consolidou-se como um dos grandes eventos da cultura brasileira desde o final do século XIX. Se hoje é um espetáculo conhecido e reconhecido internacionalmente, cabe destacar o papel decisivo da negritude em sua afirmação.
Mauro Cordeiro
Antropólogo, pesquisador e professorREFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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